quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Do tempo do EPA

“Num dia de sol Recife acordou, com a mesma fedentina do dia anterior. Na quarta pior cidade do mundo, Recife cidade do mangue. No meio da rua, em cima das pontes. É só uma cabeça equilibrada em cima do corpo”, na procura dos amores e desmores, no sangue do boi escorrendo pelo matadouro, na aflição agonizante da morte nunca chegar, e quando chega não é na hora esperada. “A dor também é prazer, a maldição é também uma benção, a noite é também um sol”, buscando no sofrimento alheio a alegria própria, não medindo nessa dor as conseqüências abençoadas por um louco padre desolado pela igreja fechada, sem os tradicionais fiéis para segui-lo, colocando a morte como um mero obstáculo, ultrapassavel com toda facilidade na conquista do amor tão almejado, mas não correspondido.
Amarelo Manga, amarelo da anemia, amarelo inverso da fruta doce, do suco grudento que deixa lugar para o sangue pegajoso, amarelo da riqueza escondida no simbolo do carro que ostenta o poder do amarelo da bandeira nacional. No grito desesperado “não aguneto mais” a rotina diária do repetir, sempre ver as mesmas caras, aguentar a ladainha de sempre, de sonhar com o amanhã, e o dia seguinte ter a impressão de tudo não passar de um “déjà vu”.
Amarelo Manga não é um filme para pessoas acostumadas com filmes comerciais, pessoas que provavelmente dirão ao final da projeção, se aguentarem até lá, filme brasileiro é sempre a mesma coisa, só tem palavrão e mulher pelada. E muito menos para ser visto no auditório do Canal da Música. Ainda não descobri o porquê dessa insistência do festival de cinema ser realizado num auditório construído para outras tantas finalidades, mas que com certeza não o da projeções de filmes. Nem o fato da acústica estar péssima tira, agora sim, os meus aplausos para Amarelo Manga e principalmente para a interpetração de Mateus Nachtergaele, num papel de homosexual que desta vez não se casa, mas que está preso na procura de conquistar seu amor.

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